Brana
Arranjo estrutural · Teoboat · 1,90 m · Projetista: Karina Menezes

Arranjo estrutural passo a passo

Nove decisões levam da sua tabela de cotas ao arranjo estrutural inteiro: espessura da chapa, perfil de cada reforço, anteparas de colisão e o quadro de pesos e centros. A forma do casco é a da tabela — os perímetros do fundo, do costado e do convés saem dela, é neles que os reforços são distribuídos, e é a baliza da tabela que dá a área e a altura de cada antepara. No pé da tela o resultado acompanha tudo o que você mexer, e o botão do rodapé leva à versão avançada, com o casco inteiro numa página só.
1 Que barco é este —

Uma estrutura de casco começa em três medidas, e só três.

Comprimento, boca e pontal. Não é o peso, não é a forma, não é o motor — três medidas. Elas dizem o tamanho do barco, e daí sai tudo o mais.

  • Comprimento — do casco puro, sem púlpito nem plataforma de popa.
  • Boca — do casco, sem verdugo nem defensa.
  • Pontal — a meia-nau, do trincaniz ao topo da quilha, medido por dentro. Não confunda com calado: pontal é altura de casco, calado é o quanto ele afunda.
O barco desta tabela de cotas

Dois caminhos saem daqui, e o painel percorre os dois.

O caminho curto é o de Dave Gerr. Ele junta as três medidas num único número, o número de escantilhão Sn, e devolve a espessura direto de uma fórmula. Serve para orçar e para conferir.

O caminho longo é o do Guia ABS. Ele passa por carga, painel, material e arranjo, e responde ao que você desenhou. Serve para projetar.

Os dois chegam perto um do outro. Quando não chegam, isso também ensina alguma coisa — e o painel avisa.

A carga de projeto: uma altura de coluna d’água.

O ABS não usa a pressão real da água parada. Ele usa uma carga de projeto escrita como altura em metros, que já embute onda, impacto e a incerteza de uma vida de serviço. Ela sai do calado e do comprimento, mais uma parcela fixa que é o mínimo de severidade que a regra admite.

Essa é a carga básica. Ela ainda é multiplicada conforme onde na casca você está: mais alta no fundo, na região que bate na onda; mais baixa perto da popa; e no costado ela cai com a altura, porque ali só chega respingo.

Abra “Ajustar os números deste barco” logo abaixo e corte o comprimento pela metade, só para ver. Repare que a parcela fixa de 1,62 m passa a pesar muito mais na carga — num casco de 3 m ela é mais da metade dela. É por isso que a regra não é uma simples proporção: barco pequeno tem um piso de severidade que não escala. Depois desfaça.
Guarde: três medidas definem o barco. Delas saem o número Sn, que é o caminho curto, e a carga de projeto, que é o começo do caminho longo.
Ajustar os números deste barco

Comprimento, boca e pontal vieram medidos da sua tabela de cotas, e o calado saiu do deslocamento pela hidrostática dela. Mexer aqui escala a forma da tabela, não a substitui: as balizas continuam sendo as suas. D é o pontal e d é o calado — o painel precisa dos dois, porque o pontal entra no Sn e o calado entra na carga.

2 De que material —

Nenhuma regra deixa você usar a resistência inteira do material.

Cada material rompe a uma certa tensão. A regra pega uma fração dela e chama de tensão de projeto — e é só com essa fração que você pode contar. A fração é o fator de segurança, embutido antes de qualquer conta.

Materialfração que a regra liberafator de segurança
Aço e alumínio0,60 da ruptura1,67
Fibra de vidro0,50 da flexão2,00
Compensado naval0,50 da ruptura2,00
Madeira maciça0,40 da ruptura2,50
ABS, Tabela 7.2. A madeira maciça leva a fração menor porque é o material mais variável — nó, fibra torta, umidade. O aço leva a maior porque é o mais previsível. Não é que a madeira seja pior: é que se sabe menos sobre cada peça dela.
Escolha o material
Espessura de fundo que cada material pediria, no mesmo barco e no mesmo espaçamento

Por que a madeira sai tão grossa?

Por causa de uma raiz quadrada. A espessura sai de t = s × √(p·k ÷ σa), então ela é inversamente proporcional à raiz da tensão de projeto — e não à tensão.

tensão 4 vezes menor → espessura 2 vezes maior tensão 9 vezes menor → espessura 3 vezes maior

A madeira tem cerca de um quarto da resistência do aço, e ainda leva a fração menor. Duas vezes mais grossa, portanto — não oito.

Clique em cada material e acompanhe a barra. Note que a ordem não é a ordem dos pesos: o aço sai como a chapa mais fina de todas e ainda assim é a estrutura mais pesada, porque ele é três vezes mais denso que o alumínio e sete vezes mais que o compensado. O passo 9 mostra as duas colunas juntas.
Guarde: a tensão de projeto é uma fração da ruptura, e essa fração já é o fator de segurança. A espessura varia com a raiz dela, não com ela.
As propriedades deste material, e de onde saíram
3 Quão rápido ele anda —

São duas cargas no fundo, e elas obedecem a leis diferentes.

A hidrostática. A água empurra a chapa porque o casco está afundado nela. Depende de calado e tamanho, e não depende de velocidade — barco parado sofre igual. É a carga do passo 1.

O impacto. O fundo bate na onda. Essa cresce com o quadrado da velocidade: dobrar a velocidade quadruplica a força.

o dobro da velocidade → 4 vezes a força o triplo → 9 vezes a força

O Guia ABS não tem termo de velocidade em lugar nenhum: foi escrito para iate de regata a vela. Então a carga de impacto vem da outra fonte, de Gerr. O painel calcula as duas exigências de espessura e adota a maior.

E aqui o painel faz uma coisa que nenhuma das duas fontes faz. O paper de Gerr também não põe velocidade na pressão: ele calcula a pressão de pico a partir do comprimento e do deslocamento, e pronto. O fator fV que este controle move é construção deste painel — a lei do quadrado da velocidade, ancorada na fração do envelope que o barco ocupa. Serve para você ver o efeito; não é reproduzível a partir das planilhas do paper.

Velocidade máxima
—
exigência hidrostática exigência de impacto a que vale: a maior das duas onde você está

A linha azul é plana porque a carga hidrostática não sabe a velocidade. A vermelha sobe como parábola. Onde as duas se cruzam, o projeto muda de natureza: deixa de ser um problema de flutuação e passa a ser um problema de impacto.

A regra de Gerr também tem um teto de velocidade, e ele é uma reta simples:

velocidade máxima, nós = 45 − 0,33 × Sn

Barco pequeno pode planar rápido; barco grande, não. Botar um casco de 34 m a 45 nós é outro tipo de projeto, com outro tipo de análise.

Arraste a velocidade até o topo e procure o cruzamento. Em fibra de vidro ele aparece perto de 30 nós em qualquer destes barcos. Em alumínio, só no fim do envelope. Em madeira, compensado e aço ele nunca chega — e o motivo é instrutivo: a exigência hidrostática desses três já é tão grossa que o impacto não alcança. Volte ao passo 2 e confira.
Guarde: carga hidrostática não depende de velocidade; impacto cresce com o quadrado dela. Vale a maior das duas exigências.
4 Onde ficam os reforços —

A chapa não aguenta a carga sozinha. Ela vence um vão entre dois reforços.

Olhe a casca por dentro: ela é uma grade. No sentido do comprimento correm os longitudinais; no sentido transversal, as balizas. Entre quatro deles fica um painel de chapa — e é esse painel que se calcula, não o casco inteiro.

O painel tem duas medidas:

  • s, a transversal — a distância entre dois longitudinais, medida no perímetro da seção.
  • ℓ, a longitudinal — a distância entre duas balizas, medida ao longo do barco.

A que manda no cálculo é sempre a menor das duas, porque a chapa arqueia na direção mais fácil, como uma prancha apoiada nas pontas mais próximas. No arranjo comum, longitudinalmente reforçado, a menor é a transversal.

s · entre longitudinais
—
ℓ · entre balizas
—

Duas vistas mostram a mesma grade.

A vista de topo é o barco visto por cima: as balizas atravessam de bordo a bordo, os longitudinais correm de popa a proa, e é ali que se enxerga o ℓ. O perfil transversal corta o barco ao meio: os longitudinais aparecem em ponto, um para cada, e é ali que se enxerga o s. O painel destacado em vermelho na planta tem exatamente o s × ℓ que a conta usa — em qualquer faixa do fundo esse par é o mesmo. Já a carga não: ela é a maior ao longo do comprimento, e a conta do passo 5 diz em que estação foi buscá-la, que em geral fica à frente da meia-nau.

baliza · atravessa o barco longitudinal do fundo o painel que se calcula
fundo costado convés baliza

Alargar o painel faz duas coisas em sentidos opostos.

Aumenta o vão, e a espessura cresce junto, na proporção direta: dobrou o vão, dobrou a espessura.

Mas reduz a carga de projeto, porque o pico de pressão de impacto é local — ele não cobre um painel grande de uma vez só. A regra desconta isso por um fator F que começa a cair quando o espaçamento passa de 254 mm.

Como a espessura depende da raiz da pressão, o efeito líquido é uma curva que sobe, mas vai perdendo inclinação:

t ∝ s × √F(s)

espessura exigida o que ela seria sem o desconto de carga onde você está o eixo é a aresta curta do painel, e para no cavernamento

E há o efeito da forma do painel.

Painel quadrado é sustentado pelos quatro lados e sofre menos. Painel comprido se comporta como faixa apoiada só nos dois lados longos, e sofre mais. A regra mede isso pelo coeficiente k:

painel quadrado k = 0,308 painel comprido k = 0,500

São 62% de diferença na carga, ou 27% na espessura. Mas esse desconto não vale para todo material. A Tabela 7.3 do Guia traz uma nota curta e decisiva: k abaixo de 0,5 não se aplica a construção em madeira, e em fibra de vidro só vale se o laminado for bidirecional.

A razão é física. Painel isotrópico distribui a carga pelas duas direções e por isso ganha com a forma quadrada. Madeira é direcional — muito mais rígida ao longo da fibra do que através dela — e não faz essa redistribuição. Então em madeira maciça e em compensado a regra fixa k = 0,5 e recusa o benefício.

Um terceiro efeito, que não vem de fórmula nenhuma.

A aresta curta pode trocar de dono. Aperte muito as balizas e, a certa altura, o cavernamento fica menor que o espaçamento dos longitudinais. Daí em diante é a baliza que define o vão, e continuar apertando os longitudinais não afina mais nada.

Repare também que alargar os longitudinais tem um teto: passado certo ponto, o perímetro do fundo não dá para mais de um painel e a curva empaca. O fundo inteiro virou um único painel.

Deixe os longitudinais em 254 mm e arraste as balizas para o mínimo. A espessura exigida cai quase pela metade — não por causa da forma, mas porque a baliza assumiu o papel de aresta curta. Confira na legenda: o primeiro número do par é o que mandou.
Guarde: manda a aresta curta, e ela pode trocar de dono; a espessura cresce com o vão mas o desconto de carga amortece; e o desconto por forma quadrada só existe em metal e em laminado bidirecional.
5 Que espessura você vai comprar —

Agora a conta inteira, com os seus números.

Tudo o que os quatro passos anteriores produziram entra aqui, nesta ordem. Acompanhe cada linha:

E o caminho curto, para conferir.

A regra de Gerr chega ao mesmo lugar por fora: sem carga, sem painel, sem espaçamento — só o número Sn do passo 1.

A regra devolve um número contínuo. O depósito vende bitolas.

Compensado não existe em qualquer medida; chapa de alumínio, tampouco. Você arredonda para cima, para a bitola comercial seguinte, e a diferença vira margem.

Espessura do fundo

O que é, afinal, o fator de segurança.

É a razão entre a tensão em que o material rompe e a tensão que ele está de fato sofrendo. FS 3 quer dizer que a carga teria de triplicar para romper.

Aparecem dois aqui, e eles medem coisas diferentes. O FS contra a carga da regra começa no valor embutido na norma e cresce quando você arredonda para cima. O FS contra o impacto é comparado com o alvo de 1,5 — menor porque carga de impacto dura instantes, e não precisa da mesma folga que uma carga permanente.

Escolha a bitola imediatamente abaixo da exigida e veja os dois fatores caírem juntos. Depois suba duas bitolas e veja, no passo 8, o peso subir junto. Escantilhão é sempre essa troca.
Guarde: arredonda-se para cima; a folga do arredondamento vira fator de segurança; e o alvo é menor para impacto do que para carga permanente.
6 Que perfil vai ser cada reforço —

Até aqui o reforço era um número. Agora ele vira uma peça que você compra.

O passo 4 disse onde ficam os reforços e o passo 5 disse a espessura da chapa entre eles. Falta dizer o que é cada reforço: uma barra chata soldada, uma cantoneira, uma peça de madeira, um chapéu laminado.

A conta que decide isso é o módulo de seção. Ele mede a capacidade de uma viga de resistir a flexão, e é uma propriedade puramente geométrica — não depende do material, só da forma. Uma peça com módulo de 20 cm³ tem o dobro da capacidade de uma de 10 cm³, seja ela de aço ou de cedro.

SM = C × h × s × ℓ² ÷ σa

É a fórmula da subseção 8.1.3 do Guia, e ela tem a mesma cara da fórmula da chapa: carga (h), espaçamento (s), vão (ℓ) e a tensão de projeto do material (σa). Só que aqui o vão entra ao quadrado — dobrar o vão de um reforço quadruplica o que ele precisa ter.

A chapa ao lado do reforço trabalha junto com ele.

Um reforço soldado ou colado na chapa não flexiona sozinho: ele arrasta consigo uma faixa de chapa de cada lado, e os dois formam uma viga em T. Essa faixa é a largura efetiva, e o Guia diz quanto vale, na subseção 3.5:

metal 100 × t (3.5.3) compensado 50 × t (3.5.2) fibra de vidro 18 × t + a base do reforço (3.5.1) tabuado liso nenhuma (3.5.4)

Repare no último: em tabuado liso as tábuas correm soltas umas sobre as outras e não fazem viga com a caverna. O Guia manda contar só o reforço — e é por isso que a caverna de um casco de tabuado sai bem mais alta que a de um casco de compensado do mesmo tamanho.

Por que a altura vale tanto mais que a largura.

O módulo de seção de uma peça retangular é b × d² ÷ 6. A largura entra em primeira potência; a altura, ao quadrado. Dobrar a largura dobra o módulo e dobra o peso. Dobrar a altura quadruplica o módulo e dobra o peso.

Daí vem tudo o mais: o perfil T ganha da barra chata do mesmo peso porque leva material para longe da linha neutra; a cantoneira ganha da chata porque a aba de cima faz o mesmo em menor grau; e um reforço baixo e largo é sempre desperdício de material.

O limite é a flambagem: uma alma alta e fina tomba de lado antes de romper por flexão. É por isso que a lista não oferece uma chata de 400 × 3 mm — o painel corta as proporções que não se constroem.

Escolha, no vau do convés, o perfil mais leve que passa, e repare na altura que ele precisa ter. O vau atravessa o barco inteiro sem apoio no meio — é o maior vão da lista, e o vão entra ao quadrado. Num barco real um pé-de-carneiro ou uma antepara no meio corta esse vão pela metade, e a exigência cai a um quarto. É a decisão de arranjo que mais economiza estrutura.
Guarde: o módulo de seção é geometria pura; a altura vale ao quadrado e a largura só em primeira potência; a chapa vizinha trabalha junto, menos em tabuado liso; e encurtar o vão vale mais que engrossar a peça.
7 Onde ficam as anteparas de colisão —

Uma antepara de colisão é uma parede estanque perto da ponta.

Ela existe por um motivo só: se o barco bate de proa, ou se o leme arranca de popa, a água que entra fica presa naquele compartimento em vez de correr para o resto do casco. O barco perde flutuação num pedaço pequeno e continua boiando.

É a peça estrutural que mais se paga: custa pouco, pesa pouco, e é a diferença entre um susto e um naufrágio.

antepara de vante · em que caverna, a contar da proa
—
antepara de ré · em que caverna, a contar do espelho
—
faixa usual da antepara a antepara, sobre a caverna baliza ao alcance do cursor baliza fora do alcance

Você escolhe a caverna, não a distância.

A antepara é uma parede transversal, e transversal já existe uma peça a cada —: a caverna. Pôr a antepara entre duas cavernas significaria uma caverna a mais, só para ela. Então o cursor anda de caverna em caverna, e não de centímetro em centímetro: cada passo move a antepara exatamente um vão.

Conta-se da ponta para dentro, que é como se fala no estaleiro — “a antepara de colisão é na terceira caverna a contar da proa”. O número da baliza no plano de linhas aparece ao lado, para você achar a peça no desenho.

O cursor para perto do terço do comprimento. Mais para dentro que isso a parede deixa de ser antepara de colisão e passa a ser divisória de compartimento — útil, mas outro assunto, e não é o que este passo dimensiona. A única exceção é o cavernamento muito largo: o cursor nunca para antes da segunda caverna, porque com duas posições ainda se escolhe alguma coisa e com uma não se escolhe nada.

Repare no que isso quer dizer: quem define a resolução desta escolha é o passo 4. Com balizas apertadas você tem muitas posições possíveis e acerta a faixa usual com folga; com balizas largas sobram poucas, e pode não haver nenhuma dentro da faixa. O cavernamento decide onde a antepara pode ficar.

Ela reaproveita tudo o que você já decidiu.

Mesma chapa do costado, mesmo espaçamento dos longitudinais — agora medido na horizontal, entre prumos — e o mesmo perfil que você escolheu para a baliza. O que muda é a carga e a tensão de projeto, e o painel confere se a chapa reaproveitada dá conta:

anteparacaverna
da ponta
baliza
nº
posição
m
% de L
da ponta
área
m²
carga
m
painel
mm
exigida
mm
adotada
mm
prumosSM exigido
cm³
—
Leve a antepara de vante para a primeira caverna e olhe a área: ela quase some, porque lá a proa é uma faca — o compartimento estanque fica minúsculo e não protege quase nada. Agora vá andando caverna por caverna: a área cresce, o peso sobe junto, e a certa altura a marca sai da faixa verde pelo outro lado, porque você entregou um pedaço grande demais do barco ao alagamento. Depois volte ao passo 4, dobre o espaçamento das balizas, e repare que metade das posições que você tinha desapareceu.
Guarde: a antepara de colisão isola a ponta que bate; ela mora numa caverna, e por isso a escolha é de caverna e não de centímetro; a carga dela vem da Tabela 7.1 d) e tem piso de 1,52 m; e em aço e alumínio ela é a única chapa do barco cuja tensão de projeto sai do escoamento, e não da ruptura.
8 Quanto pesa, e onde —

Toda peça que você escolheu tem massa, e toda massa tem um lugar.

Somar as massas dá o peso da estrutura. Somar as massas multiplicadas pela posição e dividir pelo total dá o centro de gravidade — o ponto onde o barco ficaria equilibrado se pendurado por um fio.

CG = Σ (massa × posição) ÷ Σ massa

É a mesma conta duas vezes: uma no comprimento, dando o LCG, e outra na altura, dando o VCG. Na transversal o resultado é zero por simetria, porque tudo o que está a bombordo tem um gêmeo a boreste.

De onde se conta.

Posição só quer dizer alguma coisa se você disser a partir de onde. Aqui o comprimento se conta do espelho de popa para vante, e a altura, da linha de base — o ponto mais baixo da quilha. São os dois zeros de sempre no plano de linhas, e é neles que a tabela abaixo está.

itemquantidadeunitáriomassa
kg
%LCG
m
VCG
m
—
o centro de gravidade da estrutura linha d’água antepara

O que este número é, e o que ele não é.

É o peso da estrutura: chapeamento, reforços e as duas anteparas. Não é o peso do barco. Faltam motor, tanques, lastro, convés de madeira, ferragens, mobília, sistemas, tinta, e a tripulação. Num barco pronto a estrutura costuma responder por algo entre um sexto e um terço do deslocamento — o resto é tudo o que se põe dentro dela.

E falta a margem de construção: solda, cola, resina de laminação, sobreposições, cantoneiras de canto, chapas de reforço nos cruzamentos. Um estaleiro conta de 8% a 15% em cima do peso calculado, e quem calcula estrutura pela primeira vez sempre erra para menos.

Volte ao passo 4 e aperte o espaçamento. A chapa afina e o chapeamento perde peso — mas o número de reforços sobe, e o total quase não se mexe. Estrutura tem um mínimo de peso que não se engana: o que muda de verdade é onde ele está, e quanto custa fabricar.
Guarde: peso é a soma das massas, centro é a soma dos momentos dividida pela massa; sem dizer de onde se conta, uma posição não quer dizer nada; e este é o peso da estrutura nua, sem margem de construção.
9 O casco inteiro, e o que custou —

Fundo, costado, espelho e convés não recebem a mesma carga.

Até aqui trabalhamos o fundo, que é a região mais carregada. As outras três seguem o mesmo cálculo com cargas menores: no costado a carga decresce com a altura; o espelho de popa é tratado como casca na extremidade de popa; e o convés tem carga própria, que representa gente a bordo e água embarcando.

Regiãocarga
m
painel
mm
exigida
mm
adotada
mm
FS regramassa
kg
—

E os reforços? Também se calculam, pelo módulo de seção — a medida de quanto uma viga resiste a flexão, que cresce com a altura ao quadrado. Vale a mesma lógica da chapa: quanto mais espaçados, mais carga cada um recolhe, e maior a seção que precisam ter.

—

Leve a conta inteira com você.

O botão abaixo monta a memória de cálculo completa — os particulares do barco, o material com as suas fontes, o arranjo, a conta passo a passo das quatro regiões pelos dois caminhos, a verificação de impacto, o quadro-resumo, os reforços, as observações e os desenhos — e abre o diálogo de impressão do navegador. Escolha “Salvar como PDF” como destino.

De onde vem cada número, e onde o painel simplifica

Fonte A — ABS, Guide for Building and Classing Offshore Racing Yachts, 1994. Daqui vem toda a espessura exigida pelo caminho longo e o módulo de seção dos reforços. Carga na Tabela 7.1; desconto por área nas 7.4 e 7.5; forma do painel na 7.3; tensão de projeto na 7.2; materiais nas 4.1 a 4.4. Chapeamento pela equação 7.1 em metal e madeira laminada, 7.3.1 em fibra de vidro, 7.5.1 em tabuado liso; reforços pela 8.1.3, com C = 817 nos reforços de casco e convés, 1800 na hastilha da linha de centro e 619 no prumo de antepara. A largura efetiva de chapeamento que trabalha junto com o reforço sai da subseção 3.5. Da antepara o Guia dá a carga na Tabela 7.1 d), a tensão de projeto da chapa na 7.2 e a do prumo na 8.2 — mas não dá tabela de F para antepara, só para casco e convés, e por isso o painel usa F = 1 ali.

Fonte B — Dave Gerr, The Elements of Boat Strength. O livro completo, pelo acervo desta pasta. Daqui vem o caminho curto: o número Sn (Fórmula 1-1, com as correções 1-2 e 1-3) e as espessuras diretas — 4-1, 4-2 e 4-4 em fibra; 9-1, 9-3 e 9-19 em madeira; 11-13 em casca laminada; 15-1A, 15-2A, 15-4A, 15-6A em alumínio; 15-1S, 15-2S, 15-4S, 15-6S em aço; 15-9, 5-1 e 5-5 nos espaçamentos. Todas conferidas contra os exemplos resolvidos do próprio livro.

Fonte C — Gerr, IBEX 2010, sessão 501. A cadeia de carga de impacto: pressão de pico de Hendrickson & Spencer, redução por área de Koelbel, painel com tensão de membrana de Rawson & Tupper, os fatores de segurança alvo e o teto 45 − 0,33·Sn. Os alvos SF 1,5 e SF 3 estão impressos na p.29, mas dentro dos blocos de propriedades do laminado de fibra e do alumínio 5083: aplicá-los a aço, madeira maciça e compensado é extensão deste painel. O fator de velocidade do passo 3 não está em fonte nenhuma — é deste painel.

Onde este painel simplifica. É material de aula: mostra uma decisão por vez e deixa de fora coisas que um projeto real precisa — reforço do fundo na quilha, anteparas de compartimentação além das duas de colisão, berços de motor, construção sanduíche, reforço local de ferragens, o incremento das hastilhas pelo peso do lastro e a resistência longitudinal do casco. O quadro de pesos do passo 8 cobre chapeamento, reforços e as duas anteparas, e mais nada: nem margem de construção, nem solda, cola ou resina de laminação. A geometria do casco é a sua tabela de cotas: os perímetros do fundo, do costado e do convés são medidos nela, é neles que os longitudinais são distribuídos, e a área e a altura de cada antepara saem da própria baliza. Editar comprimento, boca ou pontal no passo 1 escala a tabela; não a substitui.

Onde o painel decide por conta própria. Nenhuma das fontes traz casco de compensado em folha: o ABS só exige qualidade naval na subseção 4.9, e o livro de Gerr cobre strip-plank e cold-molded. Aqui o compensado é calculado como madeira laminada — pela equação 7.1 do ABS com o módulo de ruptura tomado como 22% do valor da espécie, e pela Fórmula 11-13 do livro. O espelho de popa não tem cláusula própria e é tratado como casca na extremidade de popa. O módulo de elasticidade do aço e as densidades do cálculo de massa são valores de norma e de catálogo, não das fontes.

Aviso. Escantilhões definem a segurança estrutural da embarcação. Confira sempre contra a fonte original e contra a norma aplicável — NORMAM, ISO 12215 — antes de construir.

barco—
material—
painel—
t exigida—
t adotada—
FS regra abs 7.2—
—